A divisão de games da Microsoft vive seu momento mais delicado em duas décadas, e o recado da nova liderança é direto: "isso não pode continuar". Em memorando enviado aos funcionários, Asha Sharma, que assumiu o comando da Microsoft Gaming, e Matt Booty, diretor de conteúdo, admitiram que os gastos altos com margens apertadas e a receita em queda são insustentáveis. O documento prepara o terreno para demissões logo após o fim do ano fiscal, em 30 de junho.

Da maior compra da história à margem de 3%

Em 2023, a Microsoft fechou a compra da Activision Blizzard por US$ 68,7 bilhões, a maior aquisição da história dos games, que trouxe Call of Duty, World of Warcraft e Candy Crush para o portfólio. Antes disso, já havia gasto mais de US$ 20 bilhões em outros estúdios. Ainda assim, os números preocupam: no trimestre encerrado em março, a receita de games caiu 7%, para US$ 5,3 bilhões, e as vendas de hardware despencaram 33%, a segunda queda seguida acima de 30%. A margem da divisão está em apenas 3%. O Game Pass, joia da estratégia, passou por mais de oito meses de queda, mas Sharma aponta que voltou a crescer, um dos primeiros sinais positivos dos 100 dias da nova gestão. A saída de Craig Duncan, dos Xbox Game Studios, e a aposentadoria de Phil Spencer completam a transição.

Por que isso vai além da Microsoft

As demissões, que segundo relatos não confirmados podem chegar a 1.000 posições (a Microsoft não comentou o número), devem ser anunciadas internamente no início de julho. E o pano de fundo é mais amplo. Matthew Ball, novo diretor de estratégia do Xbox, afirma que uma crise de componentes, puxada pela disparada no preço de memória e chips por causa da demanda de IA, deve ter efeitos agudos por dois a dois anos e meio. Os custos de armazenamento já quadruplicaram desde o fim de 2025 e podem quintuplicar até 2027. A crise é tão séria que força a Microsoft a repensar o Project Helix, seu próximo hardware, e o próprio modelo de console. O jornalista Sylvain Trinel avalia que o fechamento de estúdios do Xbox seria só o começo de uma reorganização que deve atingir toda a indústria. Estúdios como Compulsion Games, Double Fine (de Psychonauts) e Ninja Theory (de Hellblade) estariam negociando para evitar o fechamento.

Nossa leitura: contradições e uma virada bem-vinda

A resposta, batizada de Xbox Reset, é um plano de 100 dias focado em bancar grandes franquias, reconstruir infraestrutura e oferecer hardware mais acessível. Há contradições evidentes: foi a própria empresa que encareceu o Game Pass (no Brasil, o plano saltou de R$ 59,99 para R$ 119,90), e agora trata o serviço como peça-chave da recuperação. Mas há uma virada de discurso que soa promissora. Ball confirmou o retorno dos exclusivos: jogos como Gears e Clockwork Revolution serão exclusivos "em perpetuidade", enquanto títulos de serviço como Call of Duty e Sea of Thieves seguem multiplataforma. É o reconhecimento, enfim, de que vender um console sem exclusivos consistentes ficou insustentável. Reveladora também é a admissão de que Sharma chegou a perguntar, durante a contratação de Ball, se o negócio Xbox ainda era "consertável". Ball se diz um "otimista estratégico", mas a pergunta, vinda da própria CEO, mostra o tamanho do buraco.

E agora? O futuro do Xbox

A Microsoft estuda transformar o Xbox em joint venture, spin-off ou subsidiária. Para o jogador brasileiro, que já sentiu o aumento do Game Pass no bolso, os próximos dois anos prometem hardware mais caro ou repensado e uma aposta renovada em exclusivos para justificar a marca. O Xbox não vai desaparecer, e a volta dos exclusivos é um passo na direção certa, mas a divisão que um dia brigou de igual para igual com a PlayStation terá que provar, de novo, por que existe.